segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Tipos de São Paulo - Monteiro Lobato

O apressado  


     É o tipo representativo de uma grande classe.
     Magro. Fuma muito. Usa três coisas características: pasta atochada, roupa no fio, botas cambadas.
     Afirma a todo o mundo que anda sempre cheio de serviços e, para justificar o asserto, locomove-se às pressas, muito afobado.
     Ninguém sabe o que ele faz. Sabe-se apenas que vive sempre apressado, pela rua 15, praça da sé, rua São Bento...
     Se lhe perguntam:
     - Que é que você faz agora?
     Ele responde:
     - Trabalho na praça.
     É o mais que se consegue saber dele. Nem sequer nos especifica se é na praça da Sé ou Antônio Prado. Ele não entra em detalhes. Despede-se logo, apressadíssimo, a exclamar, convicto:
     - Tempo é dinheiro! Esta vida é um buraco!

     Toda a sua filosofia se resume nessas duas...máximas. Todo o seu orgulho consiste em andar às pressas e tomar café apenas nos expressos. Ele tem a impressão de que ingerindo a sua infusão num café expresso todo mundo se convencerá de que ele, com efeito, não tem tempo a perder...
     Só isso o compensa das incríveis caminhadas que ele pratica no Triângulo (1), não se sabe para quê.
     É, como se vê, um vaidoso. Mas um vaidoso que é um legítimo produto deste século ou, talvez, um autêntico produto de São Paulo.
     Não é vaidoso do luxo, que se compraz em simular grandezas, como os há em todo o mundo.
     Não. É um vaidoso do labor, um visionário que se orgulha em parecer um homem lutador.
     Às vezes, com a pasta entupida de papéis inúteis, não tem nada que fazer na rua. Mas vem para a cidade, orgulhoso de se misturar com essa multidão que se agita na luta pela vida.
     E, ufano na sua roupa esfiapada, altivo dentro de sua botas cambadas, lá se vai ele, como um Quixote, levado pela onda humana, integrado nela, e absolutamente convencido de que está agindo, de que está produzindo, de que está trabalhando, de que está contribuindo, diretamente, resolutamente, para a inigualável grande de São Paulo.
     Há quem se ria dele. Há quem o receba com sorrisos irônicos.
     Eu o admiro, na sua trabalhosa inutilidade.


                                           Folha da Manhã, 1929

_________________________________________
(1) Entre as ruas Direita, a 15 de Novembro e São Bento, ficava o Triângulo, onde se concentravam o comércio e os bancos da cidade de São Paulo.





MONTEIRO LOBATO

José Bento Monteiro Lobado, (1882-1948), é o criador de Emília, Narizinho, Dona Benta e demais moradores do Sítio do Pica-Pau amarelo. Fez de tudo na vida: além de escritor (autor de Urupês, 1918, e Ideias de Jeca Tatu, 1919, entre outros), foi promotor público, fazendeiro, editor (sócio da editora Brasiliense com Caio Prado Júnior), adido comercial em Nova York e empresário (pioneiro industrial da nacionalização do petróleo). Um dos primeiros nomes da literatura brasileira a ter escrito para a Folha Noite, colaborou por mais de duas décadas nos jornais do grupo. Sua tradução de Caninos Brancos, de Jack London, saiu em capítulos na Folha da Manhã, em 1933.  


Postar um comentário