sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Pai



meu pai e minha irma


Não vou dizer que você é o melhor pai do mundo. Seu neto me diz que eu sou o melhor pai do mundo mas ele só tem 5 anos, e nessa idade os pais são perfeitos heróis, sem defeitos. Deixa ele chegar à adolescência...

Mas mesmo não sendo o melhor pai do mundo, você foi até aqui o melhor pai que eu poderia querer ter. Nesse dia do seu aniversário de 79 anos relembro momentos da nossa vida e vejo como foi boa. Tivemos poucos problemas em relação à rebeldia da juventude. Creio que fui um adolescente sem muita coisa contra que me revoltar. Nunca me imaginei em outra família. Ir à igreja obrigado quando eu não estava a fim não me deixou traumatizado. Quer dizer, só um pouquinho.....(risos)

Trauma mesmo só quando você matou Rainha....lembra? Eu bem novinho, nem sei qual idade tinha, mas lembro que sofri com a morte da minha galinha de estimação. Mas não tinha outro jeito, estávamos de mudança e não dava para levar o galinheiro.....

As surras. É, naquele tempo a gente levava surra de chinelo, de cinta, até de palmatória, mas ninguém ficava odiando o pai. Tinha a palmatória especial que você fez e pendurou na parede, deixando-a ali como aviso para eu e meu irmão. Olhava para ela e sabia que não podia sair da linha senão o coro comia.

E o coro comeu mesmo quando eu e meu irmão colocamos fogo no quintal da prima Laura... Gostávamos de brincar nos matos, né, vivemos muito tempo perto de florestas e matagais. Naquele dia eu e meu irmão só queríamos fazer uma fogueirinha no grande quintal da casa da prima... mas aí a coisa saiu do controle, só restou sairmos correndo desesperados gritando "pai, pai, pai!" vendo o fogaréu se alastrar pelo mato seco e fatalmente chegando às árvores. 
E lá vai você, Laura, até minha mãe se bem me lembro, encher baldes para apagar o incêndio que poderia ter ficar sério.
Aquele dia o negócio foi quente.  Depois do fogo apagado já sabíamos que vinha palmatória para queimar agora, nossas mãos! Acho que depois daquele dia nunca mais brincamos de fazer fogueiras.

Mas os momentos de comunhão familiar foram muito mais marcantes para mim. Sabe aquelas histórias que você nos contava quando faltava luz? Uma vela acessa na mesa e você contando suas histórias que aprendera talvez com seu pai, vô Demétrio de Jesus "cabra macho" como você gostava de adjetivá-lo. Sabe aqueles pacotes de gibis que você sempre trazia para mim? Sabe aquelas simulações de lutas que eu tinha contigo, você me ensinando a me defender? Lembro de uma que saímos rolando pela sala e fomos parar na varanda...e você, puto comigo porque cortou o lábio. Não quenta o tranco não brinca, véio...(muitos risos)

E quando comprou o nosso primeiro violão? Meu Deus do céu!! Queríamos tanto um violão que eu fazia "violões" com madeira e fios de nylon. Aprendi vários acordes assim, na vontade, mesmo sem ter ainda o instrumento desejado.

Obrigado pela proteção paterna que sempre nos deu. Obrigado pela preocupação estampada na sua cara quando depois de uma semana na Escola de Aprendiz Marinheiro em Vitória, você queria me levar pra casa porque eu estava todo ferrado, mais magro do que já era antes, com o pé cheio de bolhas e tendo que usar tênis sem meia, olhos fundos como estivesse num campo de concentração... Ainda bem que não lhe dei ouvidos e disse que ia ficar tudo bem. 

Obrigado por ter me levado para trabalhar junto de você no Comando do Grupamento Naval do Sul lá nos idos de 1983, eu recém formado marinheiro. Eu todo empolgado, queria ir servir numa fragata, aventuras no mar e coisa e tal, mas você dizia "se você for embarcar não vai conseguir terminar seu segundo grau..." ; tive o privilégio de ter meu pai como meu sargento chefe logo no início de carreira, e foi tão bom que esqueci das fragatas.

Ah, tantos momentos, pai! 
E aquele viajandão de Angra dos Reis até Natal RN, a bordo daquela potente Brasília branca? Três dias e três noites de muito chão e divertimento para mim e para meus irmãos e muita preocupação para sua co-piloto, Valda, que estava sempre ligada na pista e gritando "Cuidado, Carlos....", "Vai mais devagar, filho...." "Olha a carreta aíííííííí...", enquanto isso, a molecada lá atrás no amplo bagageiro da Brasília transformada em cama para três.

Obrigado, pai, por tudo. Não vou mais escrever lembranças senão vai virar livro. Você muitas vezes é ranzinza, responde com grunhidos quando não está a fim de conversar, tem gênio forte do cão mas tinha e tem um coração do tamanho do mundo. 

Te amo. Te amamos.

Eduardo Medeiros, 12/11/2016
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