quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Deus e o Diabo na Terra do Sol






Deus e o Diabo na terra do sol é um dos filmes mais importantes de Glauber Rocha e do chamado "cinema novo". Lançando um mês antes do golpe militar de 1964, o filme levanta várias reflexões sobre a sociedade brasileira a partir do nordeste e de seus tipos.  No blog Plano Crítico, o articulista Ritter Fan observa:

"Olhando o Brasil a partir do Brasil, de forma endógena e intimista, Rocha nos faz passear pela miséria absoluta representada por Manuel (Geraldo Del Rey), um vaqueiro nordestino que, em desentendimento com um coronel para quem trabalha, acaba matando-o e tem que fugir com sua mulher Rosa (Yoná Magalhães, belíssima a ponto de destoar do resto do filme). Sua fuga o coloca na trilha de Sebastião (Lídio Silva), um pregador cuja analogia com Antonio Conselheiro o diretor e roteirista não esconde, do matador e representante das forças controladoras do Estado e da Igreja Antonio das Mortes (Maurício do Valle, imponente e inesquecível) e, finalmente, de Corisco (Othon Bastos, em atuação irretocável), ex-tenente de Lampião, agora em bando próprio, mas logo após a morte de seu amigo e mentor."  


Yoná Magalhães e Geraldo Del Rey em Deus e o Diabo na Terra do SolFoto: Reprodução / Reprodução


O livro A Primavera do Dragão, biografia dos anos de juventude de Glauber escrito por Nelson Mota, conta vários passagens pitorescas sobre a produção do filme. Eis algumas pérolas: 

A produção hospedou os homens em uma casa que recebia os romeiros e as mulheres em outra, alugada dos padres. A estrela Yoná (Magalhães) ficaria num sobradinho do Juiz de Direito, que era filho de um padrinho de Gugu (um dos produtores do filme, não confunda com o Gugu Liberato....).

(...)

Logo correu a lenda, não só em Monte Santo (local das filmagens), mas nos vilarejos vizinhos, de que Yoná era uma princesa de verdade e que Gugu cobrava dez cruzeiros de cada pessoa que quisesse entrar na casa e vê-la de perto por alguns segundos. Uma multidão curiosa cercava a casa principal..para tentar acalmar os ânimos, o padre teve que celebrar uma missa, com Yoná de corpo presente, e dedicar o sermão a explicar aos fiéis que ela não era uma princesa, mas uma atriz, embora ali ninguém soubesse o que era uma atriz..

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Quando Glauber gritou "ação", o Beato Sebastião, interpretado por Lídio, começou a gritar: "Vai tudo se acabar! Vai chover cem dias e cem noites! O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão!"
A procissão (os que figurantes) se imobilizou e emudeceu. Enfurecidos com o profeta agourento, os fiéis cercaram Lídio como se fosse o enviado do tinhoso, o mensageiro da desgraça. Um menino chutou sua perna, outro lhe deu um empurrão, uma velha beata socava o seu peito gritando "sai desse corpo, Satanás", a cena havia se transformado em uma alegoria glauberiana involuntária. E vriou uma chanchada quando, surpreso e apavorado, com medo de ser linchado, Lídio disparou para a casa paroquial, perseguido pela multidão, enquanto Glauber estourava numa gargalhada e gritava "corta"... 

(...)

Para acalmar a massa enfurecida, Glauber explicou que nada daquilo era verdade, que era tudo um jogo de representação, como o reisado, enquanto eles tiravam fotografias. Os assistentes reorganizaram a procissão, Lídio foi resgatado da casa, Glauber gritou "ação" e a cena foi filmada...

(...)

As filmagens continuaram com novas cenas da procissão, os figurantes já integrados no clima místico, todos cantando benditos e ladainhas com fervor. E, como se atendendo às suas preces de ficção, começou a chover de verdade. A câmara continuou rodando, colhendo imagens maravilhosas, embora as cenas não pudessem ser usadas no filme. O dia de filmagem estava perdido. E também os seguintes. A frustração de Glauber e da equipe se compensava com a alegria real dos pobres lavradores pela chuva desejada. Deus e o Diabo na terra da chuva...




No próximo texto, novas cenas pitorescas sobre o filme.

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