quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A Beleza Total




Um conto de Carlos Drummond de Andrade.


"Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza"



     A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante do seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu em mil estilhaços. 
     A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda a capacidade de ação. Houve um engarrafamento monstro que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa. 
     O Senado aprovou a lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito. 
     Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um dia cerrou os olhos para sempre. Sua beleza saiu do corpo e ficou pairando, imortal. O corpo já então enfezado de Gertrudes foi recolhido ao jazigo, e a beleza de Gertrudes continuou cintilando no salão fechado a sete chaves.      

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publicado originalmente em "Contos Plausíveis"
de Carlos Drummond de Andrade


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