sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Aerovelhas




Primeiro caso que me vem: Marina, a comissária de bordo. Prefiro muito dizer "aeromoça", mas parece que agora elas se ofendem quando são chamadas de aeromoças, deve ser porque a cada dia elas ficam mais aerovelhas. Hoje em dia tudo ofende, como nós vivemos macaqueando os americanos, também ficamos politicamente corretos e um babaca aí agora está querendo uma lei proibindo piadas que possam ofender qualquer grupo, de qualquer tipo. Imagino o surgimento de um grupo antipiadas - a Igreja Universal da  Assembleia dos Homens Sérios - registrado e, portanto, a proibição de contar qualquer piada, sob o risco de ofendê-lo. Haverá piadas clandestinas, contrabandistas de piadas, transeiros de piadas, fornecedores de piadas de árabe e judeu presos inafiançáveis pelo delito de contar piadas. Puta que o pariu, só falando assim, atraso, atraso..."

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Trecho do livro A Casa dos Budas Ditosos,
de João Ubaldo Ribeiro.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Ayn Rand - A Revolta de Atlas







Na mitologia grega, o titã Atlas recebe de Zeus o castigo eterno de carregar nos ombros o peso dos céus. Neste clássico romance de Ayn Rand, os pensadores, os inovadores e os indivíduos criativos suportam o peso de um mundo decadente enquanto são explorados por parasitas que não reconhecem o valor do trabalho e da produtividade e que se valem da corrupção, da mediocridade e da burocracia para impedir o progresso individual e da sociedade. Mas até quando eles vão aguentar? Considerado o livro mais influente nos Estados Unidos depois da Bíblia, segundo a Biblioteca do Congresso americano, “A revolta de Atlas” é um romance monumental. A história se passa numa época imprecisa, quando as forças políticas de esquerda estão no poder. Último baluarte do que ainda resta do capitalismo num mundo infestado de repúblicas populares, os Estados Unidos estão em decadência e sua economia caminha para o colapso.



Nesse cenário desolador em que a intervenção estatal se sobrepõe a qualquer iniciativa privada de reerguer a economia, os principais líderes da indústria, do empresariado, das ciências e das artes começam a sumir sem deixar pistas. Com medidas arbitrárias e leis manipuladas, o Estado logo se apossa de suas propriedades e invenções, mas não é capaz de manter a lucratividade de seus negócios.
Mas a greve de cérebros motivada por um Estado improdutivo à beira da ruína vai cobrar um preço muito alto. E é o homem – e toda a sociedade – quem irá pagar.

Ayn Rand traça um panorama estarrecedor de uma realidade em que o desaparecimento das mentes criativas põe em xeque toda a existência. Com personagens fascinantes, como o gênio criador que se transforma num playboy irresponsável, o poderoso industrial do aço que não sabe que trabalha para a própria destruição e a mulher de fibra que tenta recuperar uma ferrovia transcontinental, a autora apresenta os princípios de sua filosofia: a defesa da razão, do individualismo, do livre mercado e da liberdade de expressão, bem como os valores segundo os quais o homem deve viver – a racionalidade, a honestidade, a justiça, a independência, a integridade, a produtividade e o orgulho. 

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Maysa, a cantora da fossa





Maysa utilizaria o termo que seria usado para definir sua música em um breve futuro: "Até parece que estou na fossa" (escreveu em seu diário). 
O termo "fossa", gíria surgida nesse período (anos 50-60) para se referir às dores de amor, passaria para o vocabulário musical brasileiro como um gênero caracterizado por melodias dolentes e letras que falavam de corações partidos, fins de caso e almas dilaceradas. Os samba-canção de Antônio Maria - autor de "Ninguém me ama", quase um hino à dor-de-cotovelo - e da carioca Dolores Duran - que compôs junto com Edison Borges a "Canção da tristeza" -, com sua atmosfera noturna e passional, eram o exemplo mais bem-acabado do estilo.




Ambos exerceriam grande influência sobre a formação musical de Maysa, como demonstram as letras de Antônio Maria e Dolores Duran transcritas nos cadernos da moça. "Estar na fossa", mais que uma contingência de quem acabara de perder um grande amor, era um estado de espírito, quase uma postura existencial, que marcaria época e ditaria moda. 

(Extrato do livro biográfico "Maysa, só Numa Multidão" de Lira Neto)



Nora Ney canta "Ninguém me ama"


Dolores Duran "Canção da tristeza"

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Deus e o Diabo na Terra do Sol






Deus e o Diabo na terra do sol é um dos filmes mais importantes de Glauber Rocha e do chamado "cinema novo". Lançando um mês antes do golpe militar de 1964, o filme levanta várias reflexões sobre a sociedade brasileira a partir do nordeste e de seus tipos.  No blog Plano Crítico, o articulista Ritter Fan observa:

"Olhando o Brasil a partir do Brasil, de forma endógena e intimista, Rocha nos faz passear pela miséria absoluta representada por Manuel (Geraldo Del Rey), um vaqueiro nordestino que, em desentendimento com um coronel para quem trabalha, acaba matando-o e tem que fugir com sua mulher Rosa (Yoná Magalhães, belíssima a ponto de destoar do resto do filme). Sua fuga o coloca na trilha de Sebastião (Lídio Silva), um pregador cuja analogia com Antonio Conselheiro o diretor e roteirista não esconde, do matador e representante das forças controladoras do Estado e da Igreja Antonio das Mortes (Maurício do Valle, imponente e inesquecível) e, finalmente, de Corisco (Othon Bastos, em atuação irretocável), ex-tenente de Lampião, agora em bando próprio, mas logo após a morte de seu amigo e mentor."  


Yoná Magalhães e Geraldo Del Rey em Deus e o Diabo na Terra do SolFoto: Reprodução / Reprodução


O livro A Primavera do Dragão, biografia dos anos de juventude de Glauber escrito por Nelson Mota, conta vários passagens pitorescas sobre a produção do filme. Eis algumas pérolas: 

A produção hospedou os homens em uma casa que recebia os romeiros e as mulheres em outra, alugada dos padres. A estrela Yoná (Magalhães) ficaria num sobradinho do Juiz de Direito, que era filho de um padrinho de Gugu (um dos produtores do filme, não confunda com o Gugu Liberato....).

(...)

Logo correu a lenda, não só em Monte Santo (local das filmagens), mas nos vilarejos vizinhos, de que Yoná era uma princesa de verdade e que Gugu cobrava dez cruzeiros de cada pessoa que quisesse entrar na casa e vê-la de perto por alguns segundos. Uma multidão curiosa cercava a casa principal..para tentar acalmar os ânimos, o padre teve que celebrar uma missa, com Yoná de corpo presente, e dedicar o sermão a explicar aos fiéis que ela não era uma princesa, mas uma atriz, embora ali ninguém soubesse o que era uma atriz..

(...)

Quando Glauber gritou "ação", o Beato Sebastião, interpretado por Lídio, começou a gritar: "Vai tudo se acabar! Vai chover cem dias e cem noites! O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão!"
A procissão (os que figurantes) se imobilizou e emudeceu. Enfurecidos com o profeta agourento, os fiéis cercaram Lídio como se fosse o enviado do tinhoso, o mensageiro da desgraça. Um menino chutou sua perna, outro lhe deu um empurrão, uma velha beata socava o seu peito gritando "sai desse corpo, Satanás", a cena havia se transformado em uma alegoria glauberiana involuntária. E vriou uma chanchada quando, surpreso e apavorado, com medo de ser linchado, Lídio disparou para a casa paroquial, perseguido pela multidão, enquanto Glauber estourava numa gargalhada e gritava "corta"... 

(...)

Para acalmar a massa enfurecida, Glauber explicou que nada daquilo era verdade, que era tudo um jogo de representação, como o reisado, enquanto eles tiravam fotografias. Os assistentes reorganizaram a procissão, Lídio foi resgatado da casa, Glauber gritou "ação" e a cena foi filmada...

(...)

As filmagens continuaram com novas cenas da procissão, os figurantes já integrados no clima místico, todos cantando benditos e ladainhas com fervor. E, como se atendendo às suas preces de ficção, começou a chover de verdade. A câmara continuou rodando, colhendo imagens maravilhosas, embora as cenas não pudessem ser usadas no filme. O dia de filmagem estava perdido. E também os seguintes. A frustração de Glauber e da equipe se compensava com a alegria real dos pobres lavradores pela chuva desejada. Deus e o Diabo na terra da chuva...




No próximo texto, novas cenas pitorescas sobre o filme.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Atíria e a Ilha Perdida




QUEM ATREVESSOU A pré-adolescência nos anos 70 e início dos 80 lembram deles: A Coleção Vaga-Lume da editora Ática. 
Li vários livros dessa coleção quando era moleque nas pausas do futebol, da bola de gude e do pique-bandeira. É bom saber que a coleção continua aí, firme e forte presente em grande número de escolas. Desde seu lançamento, a coleção Vaga-Lume vem incentivando a leitura entre os jovens. Triste é ver estudantes lendo apenas "pra passar na prova". Aliás, eu amava ler os livros da coleção mas odiava ter que fazer provas sobre eles! 
Para mim a prova sobre o livro tirava um pouco da magia que eles tinham para mim. É claro que a análise literária de um livro não tira a "sua magia", mas era assim que eu via quando tinha 12 anos.

Dentre os vários da coleção, dois me marcaram profundamente: A Ilha Perdida, de Maria José Dupré, e o Caso da Borboleta Atíria, de Lúcia Machado de Almeida. Minha imaginação deu pinotes de satisfação junto a Atíria e o perigo de investigar quem matou a noiva do príncipe Grilo e a Henrique e Eduardo em sua aventura perdidos numa ilha que já era perdida...

Confesso que não lembro dos detalhes das histórias, afinal, li há mais de 38 anos! Outra dia fuçando um sebo me deparei com um exemplar da Ilha Perdida. Não tive dúvidas, comprei-o. Preciso relê-los e quem sabe, voltar a ter a experiência de deslumbramento que tive quando era apenas um moleque de 12 anos. Coisas que só a leitura podem oferecer.




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Um artigo no site da livraria Saraiva sobre a importância da coleção Vaga-Lume

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Duas Horas da Manhã - Paulinho da Viola




video



Temos grandes poetas na música brasileira. No samba destaca-se o "Príncipe do Samba" Paulinho da Viola. Duas horas da manhã é uma belíssima canção que se casa perfeitamente com a bela poesia da letra.



Duas horas da manhã, 
Contrariado espero pelo meu amor 
Vou subindo o morro sem alegria,
Esperando que amanheça o dia
Qual será o paradeiro 
daquela que até agora não voltou? 
Eu não sei se voltará, 
ou se ela me abandonou 
A minha esperança está morrendo 
E a saudade no meu peito vai crescendo
Parece até que o coração me diz
Sem ela, eu não serei feliz...






















Filho do músico Cesar Faria, Paulinho da Viola cresceu num ambiente naturalmente musical. Na sua infância em Botafogo, bairro tradicional da zona sul do Rio de Janeiro onde nasceu em 12 de novembro de 1942, teve contado constante com a música através do pai, violonista integrante do conjunto Época de Ouro. Nos ensaios familiares do conjunto, Paulinho conheceu Jacob do Bandolim e Pixinguinha, entre muitos outros músicos que se reuniam para fazer choro e eventualmente cantar valsas e sambas de diferentes épocas...Mais informações http://www.paulinhodaviola.com.br

terça-feira, 15 de novembro de 2016

A um ausente





Carlos Drummond de Andrade


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti, 
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


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publicado no livro Farewll, ed Record


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Tipos de São Paulo - Monteiro Lobato

O apressado  


     É o tipo representativo de uma grande classe.
     Magro. Fuma muito. Usa três coisas características: pasta atochada, roupa no fio, botas cambadas.
     Afirma a todo o mundo que anda sempre cheio de serviços e, para justificar o asserto, locomove-se às pressas, muito afobado.
     Ninguém sabe o que ele faz. Sabe-se apenas que vive sempre apressado, pela rua 15, praça da sé, rua São Bento...
     Se lhe perguntam:
     - Que é que você faz agora?
     Ele responde:
     - Trabalho na praça.
     É o mais que se consegue saber dele. Nem sequer nos especifica se é na praça da Sé ou Antônio Prado. Ele não entra em detalhes. Despede-se logo, apressadíssimo, a exclamar, convicto:
     - Tempo é dinheiro! Esta vida é um buraco!

     Toda a sua filosofia se resume nessas duas...máximas. Todo o seu orgulho consiste em andar às pressas e tomar café apenas nos expressos. Ele tem a impressão de que ingerindo a sua infusão num café expresso todo mundo se convencerá de que ele, com efeito, não tem tempo a perder...
     Só isso o compensa das incríveis caminhadas que ele pratica no Triângulo (1), não se sabe para quê.
     É, como se vê, um vaidoso. Mas um vaidoso que é um legítimo produto deste século ou, talvez, um autêntico produto de São Paulo.
     Não é vaidoso do luxo, que se compraz em simular grandezas, como os há em todo o mundo.
     Não. É um vaidoso do labor, um visionário que se orgulha em parecer um homem lutador.
     Às vezes, com a pasta entupida de papéis inúteis, não tem nada que fazer na rua. Mas vem para a cidade, orgulhoso de se misturar com essa multidão que se agita na luta pela vida.
     E, ufano na sua roupa esfiapada, altivo dentro de sua botas cambadas, lá se vai ele, como um Quixote, levado pela onda humana, integrado nela, e absolutamente convencido de que está agindo, de que está produzindo, de que está trabalhando, de que está contribuindo, diretamente, resolutamente, para a inigualável grande de São Paulo.
     Há quem se ria dele. Há quem o receba com sorrisos irônicos.
     Eu o admiro, na sua trabalhosa inutilidade.


                                           Folha da Manhã, 1929

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(1) Entre as ruas Direita, a 15 de Novembro e São Bento, ficava o Triângulo, onde se concentravam o comércio e os bancos da cidade de São Paulo.





MONTEIRO LOBATO

José Bento Monteiro Lobado, (1882-1948), é o criador de Emília, Narizinho, Dona Benta e demais moradores do Sítio do Pica-Pau amarelo. Fez de tudo na vida: além de escritor (autor de Urupês, 1918, e Ideias de Jeca Tatu, 1919, entre outros), foi promotor público, fazendeiro, editor (sócio da editora Brasiliense com Caio Prado Júnior), adido comercial em Nova York e empresário (pioneiro industrial da nacionalização do petróleo). Um dos primeiros nomes da literatura brasileira a ter escrito para a Folha Noite, colaborou por mais de duas décadas nos jornais do grupo. Sua tradução de Caninos Brancos, de Jack London, saiu em capítulos na Folha da Manhã, em 1933.  


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Pai



meu pai e minha irma


Não vou dizer que você é o melhor pai do mundo. Seu neto me diz que eu sou o melhor pai do mundo mas ele só tem 5 anos, e nessa idade os pais são perfeitos heróis, sem defeitos. Deixa ele chegar à adolescência...

Mas mesmo não sendo o melhor pai do mundo, você foi até aqui o melhor pai que eu poderia querer ter. Nesse dia do seu aniversário de 79 anos relembro momentos da nossa vida e vejo como foi boa. Tivemos poucos problemas em relação à rebeldia da juventude. Creio que fui um adolescente sem muita coisa contra que me revoltar. Nunca me imaginei em outra família. Ir à igreja obrigado quando eu não estava a fim não me deixou traumatizado. Quer dizer, só um pouquinho.....(risos)

Trauma mesmo só quando você matou Rainha....lembra? Eu bem novinho, nem sei qual idade tinha, mas lembro que sofri com a morte da minha galinha de estimação. Mas não tinha outro jeito, estávamos de mudança e não dava para levar o galinheiro.....

As surras. É, naquele tempo a gente levava surra de chinelo, de cinta, até de palmatória, mas ninguém ficava odiando o pai. Tinha a palmatória especial que você fez e pendurou na parede, deixando-a ali como aviso para eu e meu irmão. Olhava para ela e sabia que não podia sair da linha senão o coro comia.

E o coro comeu mesmo quando eu e meu irmão colocamos fogo no quintal da prima Laura... Gostávamos de brincar nos matos, né, vivemos muito tempo perto de florestas e matagais. Naquele dia eu e meu irmão só queríamos fazer uma fogueirinha no grande quintal da casa da prima... mas aí a coisa saiu do controle, só restou sairmos correndo desesperados gritando "pai, pai, pai!" vendo o fogaréu se alastrar pelo mato seco e fatalmente chegando às árvores. 
E lá vai você, Laura, até minha mãe se bem me lembro, encher baldes para apagar o incêndio que poderia ter ficar sério.
Aquele dia o negócio foi quente.  Depois do fogo apagado já sabíamos que vinha palmatória para queimar agora, nossas mãos! Acho que depois daquele dia nunca mais brincamos de fazer fogueiras.

Mas os momentos de comunhão familiar foram muito mais marcantes para mim. Sabe aquelas histórias que você nos contava quando faltava luz? Uma vela acessa na mesa e você contando suas histórias que aprendera talvez com seu pai, vô Demétrio de Jesus "cabra macho" como você gostava de adjetivá-lo. Sabe aqueles pacotes de gibis que você sempre trazia para mim? Sabe aquelas simulações de lutas que eu tinha contigo, você me ensinando a me defender? Lembro de uma que saímos rolando pela sala e fomos parar na varanda...e você, puto comigo porque cortou o lábio. Não quenta o tranco não brinca, véio...(muitos risos)

E quando comprou o nosso primeiro violão? Meu Deus do céu!! Queríamos tanto um violão que eu fazia "violões" com madeira e fios de nylon. Aprendi vários acordes assim, na vontade, mesmo sem ter ainda o instrumento desejado.

Obrigado pela proteção paterna que sempre nos deu. Obrigado pela preocupação estampada na sua cara quando depois de uma semana na Escola de Aprendiz Marinheiro em Vitória, você queria me levar pra casa porque eu estava todo ferrado, mais magro do que já era antes, com o pé cheio de bolhas e tendo que usar tênis sem meia, olhos fundos como estivesse num campo de concentração... Ainda bem que não lhe dei ouvidos e disse que ia ficar tudo bem. 

Obrigado por ter me levado para trabalhar junto de você no Comando do Grupamento Naval do Sul lá nos idos de 1983, eu recém formado marinheiro. Eu todo empolgado, queria ir servir numa fragata, aventuras no mar e coisa e tal, mas você dizia "se você for embarcar não vai conseguir terminar seu segundo grau..." ; tive o privilégio de ter meu pai como meu sargento chefe logo no início de carreira, e foi tão bom que esqueci das fragatas.

Ah, tantos momentos, pai! 
E aquele viajandão de Angra dos Reis até Natal RN, a bordo daquela potente Brasília branca? Três dias e três noites de muito chão e divertimento para mim e para meus irmãos e muita preocupação para sua co-piloto, Valda, que estava sempre ligada na pista e gritando "Cuidado, Carlos....", "Vai mais devagar, filho...." "Olha a carreta aíííííííí...", enquanto isso, a molecada lá atrás no amplo bagageiro da Brasília transformada em cama para três.

Obrigado, pai, por tudo. Não vou mais escrever lembranças senão vai virar livro. Você muitas vezes é ranzinza, responde com grunhidos quando não está a fim de conversar, tem gênio forte do cão mas tinha e tem um coração do tamanho do mundo. 

Te amo. Te amamos.

Eduardo Medeiros, 12/11/2016

O livro vai acabar?






Uma discussão que vem se impondo é se o livro de papel está fadado ou não ao desaparecimento por causa da revolução dos livros eletrônicos (e-books). Em minha opinião os livros digitais são uma revolução tão grande quanto a invenção dos livros. 
Eu aderi faz tempo.  Os digitais levam uma série de vantagens sobre o livro de papel. Não ocupam espaço físico, podem ser editados: aumentar ou diminuir a fonte, destacar trechos, fazer anotações. É sem dúvida uma revolução. 
Mas o livro possui uma aura quase mística; um bibliófilo gosta do objeto livro, da textura, do cheiro, coisas que o livro digital não dispõe (ainda?). Há um prazer orgulhoso de tê-los expostos em suas estantes. O livro de papel faz parte da história cultural como nenhum outro artefato. 

Nesse livro "Não Contem Com o Fim do Livro", o saudoso Umberto Eco, autor do famoso "O Nome da Rosa", ao lado de Jean-Claude Carrière, atravessam 5 mil anos de história do livro em uma discussão erudita e bem-humorada. A intenção não é apenas entender as transformações anunciadas pela adoção do livro eletrônico, mas dar início a um debate instigante e atual a partir da premissa de que a história dos livros e o amor a eles os salvarão do desaparecimento. (Site da Editora Record). 

Atualmente em meus Kindle e Kobo, as duas principais plataformas de livros digitais, eu tenho quase mil livros arquivados. Onde eu iria colocar tudo isso se fossem livros físicos? Não, não moro em mansão, e os quase oitocentos volumes que ainda guardo aqui em casa já tomam um espaço considerável. 
Sinceramente, por mim os livros de papel podem ir para os museus... mas eles não irão. Resistirão firmes mesmo que os digitais venham a se tornar a regra. E confesso que livros de artes, coleções especiais luxuosos de clássicos pedem uma boa encadernação em papel. 
Para a felicidade de todos, também creio que ambos caminharão juntos daqui para a frente.