sábado, 1 de abril de 2017

O valor de Shakespeare





 por Harold Bloom


"Sendo Johnson, há meio século, meu leitor ideal, recorro agora ao trecho que mais me agrada do Prefácio a Shakespeare.

Eis, portanto, o valor de shakespeare, o fato de sua dramaturgia ser um espelho da vida; quem confundiu a própria imaginação, seguindo fantasmas nos labirintos criados por outros escritores, será (com Shakespeare) curado dos delírios extáticos, ao ler sentimentos humanos descritos em linguagem humana, ao assistir a cenas que permitem ao eremita entender as transações do mundo, e ao confessor prever o curso da paixão.

Para sermos capazes de ler sentimentos humanos descritos em linguagem humana precisamos ler como seres humanos - e fazê-lo plenamente. Somos mais do que ideologia, sejam quais forem as nossas convicções. ___________________________
in Como e Por Que Ler

sexta-feira, 31 de março de 2017




"Também sou uma vítima do nazismo e fui enviada a um campo de concentração. Mas diferente de Anne (Frank), sobrevivi...
meu pai nos levou até o sofá, juntou-se a nós e nos abraçou. Ele nos disse que estávamos unidos como os elos de uma corrente, e que daríamos continuidade à nossa família por meio dos nossos filhos. - Mas e se não tivermos filho? - Heinz (irmão da autora) questionou.
- Crianças, prometo uma coisa: tudo o que vocês fazem NESTE MUNDO DEIXA UMA MARCA. Nada se perde. Tudo o que vocês fazem DE BOM VAI PREVALECER NA VIDA DAS PESSOAS COM QUEM VOCÊS TIVERAM CONTATO. Essas ações e atitudes farão a diferença.
Para alguém, em algum lugar, em algum momento, e as suas realizações serão levadas adiante. Tudo está conectado como uma corrente que não pode ser rompida...

Neste livro, vou contar a vocês como tentei fazer o meu melhor para deixar uma marca no mundo. 


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Depois de Auschwitz, Eva  Schloss.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Arnaldo Jabor e seus mitos literários





"O autor máximo da minha vida, a coisa mais importante que aconteceu para mim em termos de literatura foi Eça de Queirós. Para mim foi a descoberta do pensamento. Com 12 anos de idade, comecei a ler Eça na casa do meu avô e isso abriu minha cabeça como uma luz. Ele escreve divinamente e ao mesmo tempo tem aquela descrença do mundo real, a crítica mordaz, a ironia, a sacanagem, o humor. Para mim Eça de Queirós é o pai total. Sou filho desse pensamento. Na literatura brasileira, outra luz que entrou na minha mente foi João Cabral de Melo Neto, que eu considero um dos maiores poetas. E Nelson Rodrigues, que também é um filho de Eça de Queirós. Mas também tem muita importância para mim a literatura americana: li muito Faulkner, Steinbeck, Eugene O' Neill, Tennese Williams, os beats. Essa coisa meio leve e rápida da escrita americana me influenciou um pouco, assim como alguns autores "menores", como Normam Mailer - que tem uma radicalidade perfurante, aquela mistura do psicológico com o econômico, da coisa social com a coisa psíquica - e Hunter Thompeson, um dos autores do New Journalism. 


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Citado em entrevista para a revista Cult de setembro de 1997

quarta-feira, 29 de março de 2017

Escrevo






ESCREVO POR NÃO TER nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse sempre a novidade que é escrever, eu morreria simbolicamente todos os dias...Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui. 


Clarice Lispector em A Hora da Estrela


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Aerovelhas




Primeiro caso que me vem: Marina, a comissária de bordo. Prefiro muito dizer "aeromoça", mas parece que agora elas se ofendem quando são chamadas de aeromoças, deve ser porque a cada dia elas ficam mais aerovelhas. Hoje em dia tudo ofende, como nós vivemos macaqueando os americanos, também ficamos politicamente corretos e um babaca aí agora está querendo uma lei proibindo piadas que possam ofender qualquer grupo, de qualquer tipo. Imagino o surgimento de um grupo antipiadas - a Igreja Universal da  Assembleia dos Homens Sérios - registrado e, portanto, a proibição de contar qualquer piada, sob o risco de ofendê-lo. Haverá piadas clandestinas, contrabandistas de piadas, transeiros de piadas, fornecedores de piadas de árabe e judeu presos inafiançáveis pelo delito de contar piadas. Puta que o pariu, só falando assim, atraso, atraso..."

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Trecho do livro A Casa dos Budas Ditosos,
de João Ubaldo Ribeiro.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Ayn Rand - A Revolta de Atlas







Na mitologia grega, o titã Atlas recebe de Zeus o castigo eterno de carregar nos ombros o peso dos céus. Neste clássico romance de Ayn Rand, os pensadores, os inovadores e os indivíduos criativos suportam o peso de um mundo decadente enquanto são explorados por parasitas que não reconhecem o valor do trabalho e da produtividade e que se valem da corrupção, da mediocridade e da burocracia para impedir o progresso individual e da sociedade. Mas até quando eles vão aguentar? Considerado o livro mais influente nos Estados Unidos depois da Bíblia, segundo a Biblioteca do Congresso americano, “A revolta de Atlas” é um romance monumental. A história se passa numa época imprecisa, quando as forças políticas de esquerda estão no poder. Último baluarte do que ainda resta do capitalismo num mundo infestado de repúblicas populares, os Estados Unidos estão em decadência e sua economia caminha para o colapso.



Nesse cenário desolador em que a intervenção estatal se sobrepõe a qualquer iniciativa privada de reerguer a economia, os principais líderes da indústria, do empresariado, das ciências e das artes começam a sumir sem deixar pistas. Com medidas arbitrárias e leis manipuladas, o Estado logo se apossa de suas propriedades e invenções, mas não é capaz de manter a lucratividade de seus negócios.
Mas a greve de cérebros motivada por um Estado improdutivo à beira da ruína vai cobrar um preço muito alto. E é o homem – e toda a sociedade – quem irá pagar.

Ayn Rand traça um panorama estarrecedor de uma realidade em que o desaparecimento das mentes criativas põe em xeque toda a existência. Com personagens fascinantes, como o gênio criador que se transforma num playboy irresponsável, o poderoso industrial do aço que não sabe que trabalha para a própria destruição e a mulher de fibra que tenta recuperar uma ferrovia transcontinental, a autora apresenta os princípios de sua filosofia: a defesa da razão, do individualismo, do livre mercado e da liberdade de expressão, bem como os valores segundo os quais o homem deve viver – a racionalidade, a honestidade, a justiça, a independência, a integridade, a produtividade e o orgulho. 

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Maysa, a cantora da fossa





Maysa utilizaria o termo que seria usado para definir sua música em um breve futuro: "Até parece que estou na fossa" (escreveu em seu diário). 
O termo "fossa", gíria surgida nesse período (anos 50-60) para se referir às dores de amor, passaria para o vocabulário musical brasileiro como um gênero caracterizado por melodias dolentes e letras que falavam de corações partidos, fins de caso e almas dilaceradas. Os samba-canção de Antônio Maria - autor de "Ninguém me ama", quase um hino à dor-de-cotovelo - e da carioca Dolores Duran - que compôs junto com Edison Borges a "Canção da tristeza" -, com sua atmosfera noturna e passional, eram o exemplo mais bem-acabado do estilo.




Ambos exerceriam grande influência sobre a formação musical de Maysa, como demonstram as letras de Antônio Maria e Dolores Duran transcritas nos cadernos da moça. "Estar na fossa", mais que uma contingência de quem acabara de perder um grande amor, era um estado de espírito, quase uma postura existencial, que marcaria época e ditaria moda. 

(Extrato do livro biográfico "Maysa, só Numa Multidão" de Lira Neto)



Nora Ney canta "Ninguém me ama"


Dolores Duran "Canção da tristeza"

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Deus e o Diabo na Terra do Sol






Deus e o Diabo na terra do sol é um dos filmes mais importantes de Glauber Rocha e do chamado "cinema novo". Lançando um mês antes do golpe militar de 1964, o filme levanta várias reflexões sobre a sociedade brasileira a partir do nordeste e de seus tipos.  No blog Plano Crítico, o articulista Ritter Fan observa:

"Olhando o Brasil a partir do Brasil, de forma endógena e intimista, Rocha nos faz passear pela miséria absoluta representada por Manuel (Geraldo Del Rey), um vaqueiro nordestino que, em desentendimento com um coronel para quem trabalha, acaba matando-o e tem que fugir com sua mulher Rosa (Yoná Magalhães, belíssima a ponto de destoar do resto do filme). Sua fuga o coloca na trilha de Sebastião (Lídio Silva), um pregador cuja analogia com Antonio Conselheiro o diretor e roteirista não esconde, do matador e representante das forças controladoras do Estado e da Igreja Antonio das Mortes (Maurício do Valle, imponente e inesquecível) e, finalmente, de Corisco (Othon Bastos, em atuação irretocável), ex-tenente de Lampião, agora em bando próprio, mas logo após a morte de seu amigo e mentor."  


Yoná Magalhães e Geraldo Del Rey em Deus e o Diabo na Terra do SolFoto: Reprodução / Reprodução


O livro A Primavera do Dragão, biografia dos anos de juventude de Glauber escrito por Nelson Mota, conta vários passagens pitorescas sobre a produção do filme. Eis algumas pérolas: 

A produção hospedou os homens em uma casa que recebia os romeiros e as mulheres em outra, alugada dos padres. A estrela Yoná (Magalhães) ficaria num sobradinho do Juiz de Direito, que era filho de um padrinho de Gugu (um dos produtores do filme, não confunda com o Gugu Liberato....).

(...)

Logo correu a lenda, não só em Monte Santo (local das filmagens), mas nos vilarejos vizinhos, de que Yoná era uma princesa de verdade e que Gugu cobrava dez cruzeiros de cada pessoa que quisesse entrar na casa e vê-la de perto por alguns segundos. Uma multidão curiosa cercava a casa principal..para tentar acalmar os ânimos, o padre teve que celebrar uma missa, com Yoná de corpo presente, e dedicar o sermão a explicar aos fiéis que ela não era uma princesa, mas uma atriz, embora ali ninguém soubesse o que era uma atriz..

(...)

Quando Glauber gritou "ação", o Beato Sebastião, interpretado por Lídio, começou a gritar: "Vai tudo se acabar! Vai chover cem dias e cem noites! O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão!"
A procissão (os que figurantes) se imobilizou e emudeceu. Enfurecidos com o profeta agourento, os fiéis cercaram Lídio como se fosse o enviado do tinhoso, o mensageiro da desgraça. Um menino chutou sua perna, outro lhe deu um empurrão, uma velha beata socava o seu peito gritando "sai desse corpo, Satanás", a cena havia se transformado em uma alegoria glauberiana involuntária. E vriou uma chanchada quando, surpreso e apavorado, com medo de ser linchado, Lídio disparou para a casa paroquial, perseguido pela multidão, enquanto Glauber estourava numa gargalhada e gritava "corta"... 

(...)

Para acalmar a massa enfurecida, Glauber explicou que nada daquilo era verdade, que era tudo um jogo de representação, como o reisado, enquanto eles tiravam fotografias. Os assistentes reorganizaram a procissão, Lídio foi resgatado da casa, Glauber gritou "ação" e a cena foi filmada...

(...)

As filmagens continuaram com novas cenas da procissão, os figurantes já integrados no clima místico, todos cantando benditos e ladainhas com fervor. E, como se atendendo às suas preces de ficção, começou a chover de verdade. A câmara continuou rodando, colhendo imagens maravilhosas, embora as cenas não pudessem ser usadas no filme. O dia de filmagem estava perdido. E também os seguintes. A frustração de Glauber e da equipe se compensava com a alegria real dos pobres lavradores pela chuva desejada. Deus e o Diabo na terra da chuva...




No próximo texto, novas cenas pitorescas sobre o filme.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Atíria e a Ilha Perdida




QUEM ATREVESSOU A pré-adolescência nos anos 70 e início dos 80 lembram deles: A Coleção Vaga-Lume da editora Ática. 
Li vários livros dessa coleção quando era moleque nas pausas do futebol, da bola de gude e do pique-bandeira. É bom saber que a coleção continua aí, firme e forte presente em grande número de escolas. Desde seu lançamento, a coleção Vaga-Lume vem incentivando a leitura entre os jovens. Triste é ver estudantes lendo apenas "pra passar na prova". Aliás, eu amava ler os livros da coleção mas odiava ter que fazer provas sobre eles! 
Para mim a prova sobre o livro tirava um pouco da magia que eles tinham para mim. É claro que a análise literária de um livro não tira a "sua magia", mas era assim que eu via quando tinha 12 anos.

Dentre os vários da coleção, dois me marcaram profundamente: A Ilha Perdida, de Maria José Dupré, e o Caso da Borboleta Atíria, de Lúcia Machado de Almeida. Minha imaginação deu pinotes de satisfação junto a Atíria e o perigo de investigar quem matou a noiva do príncipe Grilo e a Henrique e Eduardo em sua aventura perdidos numa ilha que já era perdida...

Confesso que não lembro dos detalhes das histórias, afinal, li há mais de 38 anos! Outra dia fuçando um sebo me deparei com um exemplar da Ilha Perdida. Não tive dúvidas, comprei-o. Preciso relê-los e quem sabe, voltar a ter a experiência de deslumbramento que tive quando era apenas um moleque de 12 anos. Coisas que só a leitura podem oferecer.




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Um artigo no site da livraria Saraiva sobre a importância da coleção Vaga-Lume

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Duas Horas da Manhã - Paulinho da Viola




video



Temos grandes poetas na música brasileira. No samba destaca-se o "Príncipe do Samba" Paulinho da Viola. Duas horas da manhã é uma belíssima canção que se casa perfeitamente com a bela poesia da letra.



Duas horas da manhã, 
Contrariado espero pelo meu amor 
Vou subindo o morro sem alegria,
Esperando que amanheça o dia
Qual será o paradeiro 
daquela que até agora não voltou? 
Eu não sei se voltará, 
ou se ela me abandonou 
A minha esperança está morrendo 
E a saudade no meu peito vai crescendo
Parece até que o coração me diz
Sem ela, eu não serei feliz...






















Filho do músico Cesar Faria, Paulinho da Viola cresceu num ambiente naturalmente musical. Na sua infância em Botafogo, bairro tradicional da zona sul do Rio de Janeiro onde nasceu em 12 de novembro de 1942, teve contado constante com a música através do pai, violonista integrante do conjunto Época de Ouro. Nos ensaios familiares do conjunto, Paulinho conheceu Jacob do Bandolim e Pixinguinha, entre muitos outros músicos que se reuniam para fazer choro e eventualmente cantar valsas e sambas de diferentes épocas...Mais informações http://www.paulinhodaviola.com.br